Estética científica
Os Cinco Mitos da Harmonização Facial
Dra. Andressa Sobral
Farmacêutica-bioquímica (USP) · CRF-SP 122316
O envelhecimento é um processo biológico complexo e inevitável. Contudo, a busca pela juventude e simetria facial nas redes sociais gerou uma enxurrada de mitos e modismos que desviam o paciente do que há de mais importante: a saúde celular da pele e a segurança biológica dos tratamentos.
Abaixo, analisamos sob a ótica da bioquímica clínica e da anatomia facial os cinco mitos mais comuns que cercam os procedimentos estéticos avançados.
Mito 1: "A harmonização facial deforma e de-caracteriza o rosto de forma inevitável."
A Realidade Bioquímica e Clínica
A de-caracterização ou o chamado "efeito pillow face" (rosto inflado e arredondado) não é uma consequência natural dos injetáveis, mas sim de uma abordagem focada em volumização excessiva. Quando preenchedores como o ácido hialurônico são injetados em quantidades exageradas na tentativa de camuflar a flacidez cutânea superficial, o resultado é a perda das expressões naturais.
Na estética científica, o foco é a sustentação profunda e o estímulo à neocolagênese. Em vez de simplesmente preencher volumes, utilizamos bioestimuladores (como o ácido poli-L-lático - PLLA) para induzir os fibroblastos do próprio paciente a produzir colágeno estrutural, devolvendo a firmeza sem alterar as proporções ou os traços naturais da paciente.
Mito 2: "Cremes tópicos anti-idade de marcas luxuosas substituem os injetáveis."
A Realidade Bioquímica e Clínica
A barreira cutânea (estrato córneo) é uma das barreiras mais eficientes do corpo humano, projetada especificamente para impedir a entrada de substâncias externas. Moléculas grandes como o colágeno ou o ácido hialurônico de alto peso molecular presentes nos cosméticos tópicos não conseguem transpor o estrato córneo e alcançar a derme, onde o envelhecimento de fato ocorre.
Embora os cremes de luxo desempenhem um papel excelente na hidratação superficial da epiderme, na melhora do viço visual e na proteção antioxidante, eles são incapazes de reestruturar tecidos ou repor volumes ósseos e musculares profundos. Para atuar na derme profunda, são necessárias técnicas injetáveis de precisão (como o Skinbooster e bioestimuladores), que depositam os ativos diretamente abaixo da barreira cutânea.
Mito 3: "Ingerir colágeno via oral elimina a necessidade de fazer tratamentos injetáveis."
A Realidade Bioquímica e Clínica
Ao ser ingerido, o colágeno (mesmo o hidrolisado ou os peptídeos bioativos) passa pelo sistema digestório, onde é quebrado em aminoácidos individuais (glicina, prolina e hidroxiprolina) pelas enzimas gástricas e pancreáticas. O organismo absorve esses aminoácidos e os direciona para os tecidos onde a demanda proteica é mais crítica e imediata, como cartilagens, articulações e cicatrização de órgãos internos.
O direcionamento do colágeno oral para a derme facial é estatisticamente insignificante. Os bioestimuladores injetáveis de colágeno, por outro lado, causam uma resposta inflamatória subclínica controlada exatamente na região aplicada, sinalizando aos fibroblastos locais que há uma necessidade direta de sintetizar colágeno tipo I e tipo III naquela área da face.
Mito 4: "O preenchimento com ácido hialurônico dura para sempre e é perigoso."
A Realidade Bioquímica e Clínica
O ácido hialurônico utilizado na estética é um polímero biodegradável biocompatível. Ele é gradualmente quebrado no organismo pela enzima natural hialuronidase e reabsorvido de forma segura pelo corpo ao longo de 12 a 18 meses, dependendo da reticulação (densidade) do produto e do metabolismo individual do paciente.
Essa reabsorção é um fator de segurança biológica essencial. Conforme envelhecemos, a estrutura óssea do crânio sofre reabsorção e os coxins de gordura facial sofrem migração e atrofia. Se o preenchedor fosse permanente (como o polimetilmetacrilato - PMMA), ele se tornaria visível e deslocado conforme a arquitetura óssea e muscular subjacente se alterasse com os anos.
Mito 5: "Para resolver a flacidez facial, basta esticar a pele ou preencher os sulcos."
A Realidade Bioquímica e Clínica
A flacidez da face é um processo tridimensional e multifatorial que envolve:
- Reabsorção óssea profunda (redução do suporte do esqueleto facial).
- Atrofia e deslocamento dos compartimentos de gordura profunda.
- Degradação do colágeno e da elastina na derme.
Tentar resolver a flacidez apenas "esticando" a pele cirurgicamente sem repor o volume perdido, ou simplesmente preenchendo os sulcos superficiais (como o bigode chinês) sem tratar o suporte ósseo do terço médio (malhar e zigomático), gera resultados artificiais e artificiosos. O tratamento correto exige repor a sustentação estrutural profunda e induzir a regeneração de colágeno na derme por meio de protocolos integrados.